sábado, 5 de dezembro de 2009

Endireitando.

Não posso dizer que o vem a seguir não seja uma ficção. O ficcionista - quando não declaradamente autobiográfico - fala de algo que não conhece. Não sei se Thomas Mann teve ou não tuberculose e foi parar por esse motivo em uma "montanha mágica", por exemplo. Sei de mim e mesmo assim, muito pouco, ou não haveria a angústia e esse ponto é essencial ao que pretendo escrever: sabemos muito pouco de nós mesmos. Quando durmo em meu quarto, quando a noite tem a paz anímica que me permite o sono, antes fico pensando o que se passa nos outros aposentos, os escuros, da casa. Haverão insetos ? Até mesmo seres místicos, oras ? Fantasmas circences cuspindo fogo fátuo na sala de portas trancadas ? Somos casas cujo humor e disponibilidade psiquíca nos conduz à iluminar um ou outro cômodo. Agora mesmo, eu estando aqui, alguém dorme em um dos quartos. Com o que sonha ? Belezas ? A Arcadia ? Ou com um crime hediondo ?
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Por força das circustâncias vivo cercado por livros de Direito. Muitos, acotovelados, empilhados, estão agora mesmo ao meu lado. Seus títulos raramente me interessam e quando me arrisco a sondar um ou outro, me parecem herméticos. Com que direito então falo do direito? Oras, se agora me levantar, pegar uma adaga, vestir o roupão, for até meu vizinho, acordá-lo com a campainha, vê-lo chegando até mim com um misto do sono e generosidade e enfiar a lâmina rente ao seu esterno, deixando com isso impressões digitais, testemunhas da minha voz ao interfone, os cachorros latindo ao grito de espanto, dor e morte, no mínimo terei algumas dificuldades em arrumar um bom emprego no futuro quando me pedirem a certidão de antecedentes criminais. Será que a pessoa a dormir no quarto sonha com adagas ? Kant diria que se isso acontece, o melhor seria prendê-la. Freud há de inocentar: amanhã não se lembrará, uma barreira se formará, bons sentimentos surgirão, se preocupará com o aquecimento global e com todas as tolices que formam a consciência do homem comum, eu e você. Porém Freud também responsabiliza, mas sem culpar: ocorre de "esquecermos" a luz de um banheiro acesa, até mesmo de deixarmos um recado fecal no vaso sanitário, ao próximo, ao amado próximo, ao nosso semelhante, esse que merece respeito, bons modos e de forma alguma uma adaga no peito.
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Em não raros códigos, o suicídio é visto como crime. O seguro não cobre o suicídio. E o potencial suicida, ainda no levante da esperança, não suporta ver facas fora da gaveta. Guadar a faca é apagar a luz da má intenção. Cegar com venda a pulsão escópica, que vale a pena lembrar, é fonte de gozo.
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Ao condenar um réu, o que faz a Justiça ? O que é um sujeito "perigoso para a sociedade". Perigoso em quê ? A "sociedade": um grande conjunto humano. Não há lâmina de adaga que resista a tal soma. Mas muito bem, réu condenado, réu encercerado. E as adagas oníricas que atravessam a barreira da censura do homem médio, os cômodos escuros, as gavetas sem chave, continuam existindo. Existindo. O réu não existe mais, estando encarcerado ele também em uma espécie de ficção, que dependendo do grau da "hediondez" criminosa é relatada nos folhetins chamados de telejornais. O réu é uma personagem. E como tal, nos romances de edificação moral, é um exemplo, ou "contra-exemplo". O único papel do encarceramento não é proteger o número infinito de sujeitos sociais, mas criar uma ficção, uma anulação da realidade. Da realidade humana. Esconder a faca na gaveta obscura das celas superlotadas e jogar um "spot" de luz sobre a face amedrontada do potencial suicida que se afasta enojado de si mesmo. O encarceramento, como ficção, é a morte do réu como sujeito. Toda condenação é uma condenação à morte...não para que o réu não cometa mais crimes, mas para que as barreiras morais da sociedade se fortaleçam. A morte do sujeito, com o nascimento da persona "réu" apenas protege a sociedade...da própria sociedade.
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A ineficácia história e mundial da Justiça se deve não à burocracia, ao retardo nas decisões, tudo isso faz parte da telenovela, são as justificativas de um enredo manco. Tal ineficácia é incurável e encontra sua resposta no ser humano mediano. Geralmente no mais justo dos homens. O que engole as injúrias cotidianas, tenta deletar os sonhos ( mesmo a mente tem um nome criminoso para os sonhos hediondos: o "pesadelo" é o réu do leito, todo sonho é apenas sonho, mas uma classe merece uma nomenclatura diferente, diferenciada, afastada, a ser confessada em divãs, antidepressivos, e se repetidos, manicômios...com grades, contenções, penalidades...), esse ser humano mediano, que diante de um "mal pensamento", bate na madeira, madeira de "mater", a mãe que protege contra o mal. Como de madeira também é o martelo cinematográfico do juiz. Em todas simbologias e religiões, a mãe é aquela que afasta imediatamente o mal. Mas que mãe tem tempo e possibilidade de fazer isso o tempo todo ? Apenas uma mãe louca e enlouquecedora, doravante, uma mãe ficcional.
O choro da criança frustrada em sua fome, dor, solidão é o primeiro sinal criminoso de todos nós. Podemos ganhar mama, carinho, remédio. Mas nunca "nem sempre".
- Engole o choro, moleque. - Encarcere ou choro, melhor dizendo. Até aprender a falar, a não fazer caca fora do lugar, respeitar os amiguinhos. Enfim, formar essa ilusão superficial chamada já aqui de "sociedade", respeitável, todos cômodos iluminados, facas escondidas, pesadelos curados, convivência civilizada com o vizinho.
Na mídia, a Justiça escreve suas ficções mortais de maneira fracassamente preventida e catártica. E nunca as celas serão mais compatíveis com a vida, mesmo que se defenda a construção de mais presídios. A idéia é mostrar o réu como alguém que atravessou o Hades, e que agora está penando exatamente como Dante descreveu.
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O hermetismo dos livros de Direito é uma "chave dos mistérios" dedicada aos iniciados em tal arte ficcional. Imagino um livro claro sobre Direito, acessível, indicado ao grande público por alguma revista semanal de grande circulação. Seria o livro mais perigoso de todos os tempos. O mais diabólico. O possível instaurador do caos absoluto. Se os advogados não usassem gravata, se os juízes não usassem toga. Se não houvesse essa "ritualização" do processo. Se verdade fosse dita, em outras palavras.
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Já é noite avançada.
Hora de apagar as Luzes.
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sábado, 28 de novembro de 2009

De joelhos, em pé.

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E dizem para que eu ore, e não pensem que não o faço,
mais que isso, eu canto,
como os antigos desbravadores - só se desbravam utopias ou carcaças -
Canto em ausência de literatura,
absoluta,
sem agradar ninguém canto,
pois quem canto não se agrada,
louvo o homem que sai da prisão de grades ou estradas largas e desertas
e procura emprego em uma borracharia que não tem máquina de refrigerantes,
agracio o homem que salva seu amigo de uma fria,
envolvendo cocaína, uma puta desmaiada e o possível assasssinato de um policial,
bato palmas e dou um soco em quem demorou para abrir a porta na segunda chance,
ou que fosse a terceira, não é assim, sete mil vezes para quem aconselha o genuflexório ?
abençoado seja o meu cérebro dentro do lava jatos,
que me ofereceu o silogismo: Por Vezes a Má Sorte é Apenas Falta de Cuidado.
Ah, como amo os descuidados,
como me tocam suas lágrimas quando notam que foram patéticos usando aqueles disfarces, as bengalas, apenas para retornarem cafunguentos até a casa solitária cercada de posters de mulheres nuas e com dentistas competentes até os pentelhos do espírito photoshopado,
Como me agradam os jovens que tocam o sexo do mesmo sexo e só dormem com carinho que arrepia o frio e as paredes e as notícias do sub-momento.
Viva seja a dança da voltagem nas tomadas elétricas
e mesmo assim, vivo seja o cadáver encontrado sorridente no centro do matagal sem digitais,
Bebo mesmo em louvor o vinho do Cântico dos Cânticos, esse que só pode sair da boca amada, e bem dito em latim, diz o amante: - Corramos, uva !
Os que correm, os que tropeçam, os que ofegam, os que desmaiam na montanha e acordam entre leões montados por pássaros dissidentes da ditadura belezinha,
os que mordem os próprios joelhos quando os soníferos não fazem efeito,
os perfeitos atlas de anatomia humana rabiscados por uma criança defeituosa,
viva os labirintos do SPC, do SERASA, da Culpa,
os escrotos dos advogados, o prazo de carência para os carentes em suicídio,
a língua que não queima na hóstia,
e nem mesmo quando se alimenta do corpo e do sangue da mesquinharia,
que tenham longa vida os que afirmam "Veja bem, existem coisas regulares e irregulares",
Sagrado seja o adjetivo "Complicado" para quando aplicado a um ser humano que não tem mais joelhos,
o seguro saúde, o seguro aposentadoria, o seguro da camisa de força
com todos psiquiatras éticos fotografando a cena,
usando ray-bans, tendo carta de motorista para um 4x4, e as cordas vocais estupradas com prazer pela amnésia ética, pela afasia da hombridade,
O reino dos céus em piscinas treponemas para a chefia que grita então:
- O senhor está me chamando de mentiroso ?! É isso ?
OH Excelcius !
Hosana no transporte lotação !
Êxtases místicos em acordar com o despertador às 5:00 e jaculações a cada buraco na avenida !
Ao cão que lambe a lata vazia de sardinha.
Ao gato que perdeu todos pêlos de seu rabo.
Ao papel amassado e esquecido do Sonho de Valsa e de Farsa !
Sim.
Eu oro. Me prego. Evangelizo caixas de mudanças.
Chagas por garrafas quebradas, brasas de cigarro, cicatrizes de pico na veia.
Muito louco, "bom dia, amigo sol". Bom dia, não se esqueça, fariseu destrapilho: bom dia, olheiras e pão amanhecido em calendários.
O vermelho sempre com o alaranjado.
Baita em Paz e que o Sorriso vos acompanhe.
º

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

As Cartas Úmidas


( Conto do projeto em parceria com Grazzi Yatnã, de completude. Pode ser lido separado, sem perdas, mas recomendo que acompanhem em http://grazziencontro.blogspot.com/, para ganhos)
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Para Sophie Calle.

Já esboçamos diversas cartas de despedida, sempre amassadas, a bola jogada no lixo do outro, com a intenção de ser lida e como a dizer, "veja que abandono o abandono, mas quase".
Não sei se foi você ou eu, ambos tomando vinho, ou eu tomando vinho e você na ioga, ou você tomando vinho e eu olhando o teto e seus rumores audíveis, o essencial é que tivemos a idéia, acho que porque ambos estudávamos - sob ângulos diferentes, ambos amadores - a carta de Pero Vaz de Caminha.
Era a nossa vez de enviar a carta sobre essa ilha que somos nós. Dar sinal de vida em funcionamento, exato, as engrenagens e os súbitos improvisos. Não sei quanto tempo levamos para, cada um a sua vez, escrever as regras, leis, hecatombes elegantes do nosso relacionamento. Claro que após a escrita de um e de outro, vinha a irritação. Mas como pode viver um homem sem irritação ? Seria o mesmo que pensar e crer que as meias protegem realmente os pés contra o sapato e as caminhadas por aí.
Alguns trechos despertavam o que eu poderia chamar de "interesse sexual",grosso modo. Estando o outro disposto, ótimo, não estando, vide a carta. O objetivo era claro para nós desde o vinho, a ioga e o teto fantástico: mandar para nossos conhecidos, do prédio até a torção do mundo, pais, irmãos, figurantes, com o pagamento do reenvio dentro do envelope, pedindo que anonimamente, após ler o conteúdo, nos escrevessem seus julgamentos, de que ordem fossem. Afinal, perdemos a chave, mas sempre há o vão debaixo da porta.
E assim.
Mesmo tendo eu e você alguma ligação com o que se chama "arte", o "Projeto Carta" foi um sucesso. Começamos a receber os retornos após três dias de envio. Eram letras de forma, letras coladas de revista, impressas por computador, e o mais magnífico é que enviamos 38 cartas e recebemos 153 respostas. Você se empolgou a ponto de comprar rosas e se ajoelhar com os cotovelos nos meus, os joelhos.
Tal exacerbação com os interlocutores tinha como ponto em comum a náusea que despertávamos, o nojo, a inveja, até mesmo o pecado foi citado. Nem um único elogio. Certamente era o que esperávamos, já no vinho, na ioga, no teto de sombras mágicas. Não que em nós algo fosse condenável, sim, muito o era, mas o desejo de maledicência dos nossos próximos, os seres humanos, quando amparados pelo anonimato, era radical. Nenhuma tese filosófica para isso, apenas a constatação que entre nós dois, eu e você, a vilania doméstica servia antes para nos manter sob o mesmo teto, ioga e vinho do que o "amorzinho gostoso"dos vizinhos com estetoscópios curiosos. Nossas sessões de espancamento divididas em dias pares e ímpares, o arregalar um de seus olhos no momento do gozo, para esporrar na retina, a sua sopa de fezes e macarrão enroladinho, o poker valendo unha, enfim, nossas coisinhas caseiras tinham...ressonância...tanto em nós, como em outros, diretos ou infectados. Se como dizem hoje em dia, o corpo não é apenas individual, mas "político", alguma coisa estávamos criando no nível social. Ultraviolência? Bem, na verdade, não que isso importe. Muito mais relevante é o narcisismo insofismável que nos foi servido, o gasto de tempo e trabalho alheios, a auto admiração em viés, esse nosso alimento predileto.
Pero Vaz de Caminha e sua ilhota nada significavam perto da grandiosidade selvagem de apenas dois seres e alguns fetos perdidos.
Todas as cartas foram lidas por nós dois, cada um munido de um marca texto de cores diferentes, sendo que ao final, tudo estava grifado, nem as vírgulas traçadas com ódio escapavam à delicadeza sinfônica da infâmia.
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"Eu, como macho, nunca deixaria uma mulher fazer isso que ela faz com seu ânus"
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"Você, mocinha, é uma grande moralista, não pense que não, se acha melhor, se acha mais que eu, mas eu tenho uma família e isso me alegra, mesmo que você esnobe"
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"Será que vocês dois não pensam em arrumar empregos decentes, estáveis, ao invés de se afundarem na vida de vício e golpes ?"
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"E esse rapazote, muito do atrevido, tenho certeza que é uma pessoa triste, e não quer sair disso! Leia Augusto Cury"
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"Mulher, pára com essa doideira, com esse otário, vem prum homem que vai te fazer gozar e muito, ver estrelas ( viu, também sou poeta !)"
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"Dois macacos ! Dois vermes ! Nem isso ! E ainda existem darwinianos !"
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"O dia do Juízo vai chegar e o vermelho sangue manchará vossas almas ignatas!"
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"Cara, se eu te encontro na rua ! Tá certo que ela é doente, mas em mulher não se bate nem com uma rosa"
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"Grande coisa o que vocês fazem. Eu tenho 5 piercings, sendo um vaginal, 19 tatuagens, e gosto de ser elevada por ganchos ! Não são de nada. Bú !"
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"Vocês se beijam ou se vomitam na boca?"
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Agora sabem de nós. Minha esquizofrenia me diz que mais gente saberá. Você, com a cabeça no meu ombro, o cigarro entre os dedos, diz que meus delírios nunca erram.
Nos fazemos cafunés.
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quinta-feira, 9 de julho de 2009

Maré Estagnada.


( Texto pertencente ao duo Grazzi Yatña e Paulo Castro. Pode ser lido separadamente, ou em parceria com http://grazziencontro.blogspot.com, para melhor apreciação).
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Essa será apenas mais uma vez. Quem sabe a cordilheira dos Andes, ou a pensão mais perto da rodoviária, na cidade em que a vontade de fumar me fizer descer. Nos primeiros tempos, você ligava o chuveiro na água fria - para que o som da eletricidade não abafasse em meus ouvidos as lágrimas, a cena de cineminha cult, e a pretensa culpa semeada - e mesmo assim eu tranacava a porta por fora, respirava fundo e pensava coisas muito particulares e pequenas, como: - Mundo, aí vou eu.
Você também já fizera o mesmo incontáveis vezes.
O que me perturba hoje é o incontável.
No que ele tem de fatalismo ( "de nada serve, acabarei voltando, trazendo um suco de soja na mão e silêncio no corpo) ou se realmente existirá um ato que seja definitivo. Um dia o lobo vem mesmo, pequeno Pedro. E de tão incontável, não sei se estou saindo ou chegando. Te deixando mais uma vez ou retornando. Ou sabendo da (perigosa) lógica, sendo um cavalheiro e levando essa mochila ( como é leve!) para o táxi que na verdade, você nem se dá ao trabalho de resolver comigo o enigma, que na real, é teu e te espera, quem sabe.
Das vezes em que você foi, após desligar o telefone "um carro aqui na...", eu ligara imediatamente, invariavelmente, também em alto e bom som chantagista para o avião de drogas.
- Que morra, seu puto !
Não. Você dizia isso quando ficava debaixo do chuveiro. E nem era "puto", essa raiva tão apaixonada, irasciva e cuspilenta. "Perdedor". Era algo assim, que passava por aí.
Só que imponderável mesmo é saber se entro ou saio agora pela porta. Pela abertura da cozinha, você pica cubos de tomate. Seu vinagrete é invencível. Faz porque amo e me ama e me recebe de volta ou para saber o que perco ? Nem isso nem aquilo. Aqui não se trata nem nunca se tratou de opções e seus festejos. Como é definitivamente leve essa mochila, ou apenas as costas que me pesam mais um pouco, cada qual deveria saber o peso da coluna cervical que carrega em sua paixão.
- Parado esperando o que ? - A faca não jogada, arremessada, invocativa. Nada, colocada de lado com calma, para que junte os cubos de tomate com as palmas molhadas das mãos.
- Dessa vez eu não volto.
- Volta pra onde ? - e ria, riso sem som, esboço unilateral de lábio. Me dê uma pista ou. Ou. Qualé? Não pode ser tão infame assim. Ir ou voltar. E a indiferença entre uma coisa e outra. Claro que pode. E é.
- Não volto para casa, para você, para o que...
- Esquece. Não tem importância.
A buzina lá embaixo. Um toque. Logo dois. Entramos em cena brevemente.
- Vem comigo.
- E o vinagrete?
- Não há de ser, porra.
- Quem sabe em vinte minutos. Tenho que ficar de olho nos pepininhos mergulhados no aceto balsâmico.
- Nem pensar. Eu vou. E pode ser definitivo.
- Não se esqueça de trazer as torradas.
- Eu te amo...
- Vá lá. Eu também. Mas nunca mais daquela padaria. Coisa intragável.
- Me mate agora, se mate agora, ajoelhe e beije meus pés, fique nua, faça um surrealismo desesperado, quem sabe então nem eu, nem você e tudo como...
- Se for o caso, cuide os pepininhos? Só tire em vinte minutos. Para cortar você não tem a mínima competência. Perde todo suco. Alguém precisa ficar pra cuidar dos pepininhos.
Três buzinadas, três afoitas.
- Bom, se você se nega, tapa os ouvidos ao meu desespero...
- As torradas. Olhe o que colocam no saco antes de pesar. Aquelas vacas e suas torradas queimadas.
- É isso, é isso ! Você se nega a ouvir ! Ei, taxista, buzina mais três vezes, com quatro, entre em cena, suba aqui, vamos lá, ela é surda, ela é surda, mas sabe que agora pode ser definitivo ! Ah se sabe, tanto bate até que fura, isso mesmo, não vou cair de joelhos, não vou provocar o vômito, não, nada de partir praí e te esgoelar até a morte ! Nem pense nisso. Tua peça na posição é indiferença, muito do bem, é indiferença que eu darei. Aposto mais em mim. Sim, não tem mesmo a mínima importância.
-...
-...
- Muito bem, então você não erra nas torradas?
- Claro que não. E pensei em um vinho excelente.
- Barato ?
- Os Argentinos. Atualmente, ótimo custo benefício.
- Hum. Morrendo de fome. Pega um táxi pra ir mais rápido.
- Sim, já tinha pensado nisso.
- Lindo. Te amo.
- Volto já, princesa.
- Beijinho, beijinho.
- Veja os pepininhos !
- Tudo em ordem.
- Sim, já volto, tudo na mais perfeita ordem.
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quinta-feira, 14 de maio de 2009

Malas molhadas.


[ Esse texto faz parte da interface textual com Grazzi Yatña, http://grazziencontro.blogspot.com , podendo ser lido aqui, separadamente, ou o "work in progress" de dois autores, aqui e lá ]



O que me manteve longe por tantos dias? Ou mais, se nem ao menos é o mesmo aeroporto que deixei. Ou antes ainda, o que me fez pegar a mala e convulsivo, enfiar de todo modo, sapatos verticais, sair da moldura, chamar o táxi ?
Recordo que você não estava, recordo que sempre adiávamos a troca das roupas de cama, entre bocejos e vulgaridades ditas como se aguardam as ratazanas sazonais. Lembro, quem sabe, tenha trazido vinho para o jantar anterior ao da minha fuga, quando você me comunicou que havia trocado a marca dos anticoncepcionais e que portanto, a bem da prudência e do horror, deveria cuidados ao esporrar.
Em algum momento o telefone tocara e eu deveria dizer se estava satisfeito com um serviço de impostos, metas, shoppings, algo assim. E também o interfone, a moça tinha uma voz, pois não me lembro e sim do interfone,( voz demasiadamente parecida com a sua), esse mesmo interfone que na minha ausência - vejo agora - mandou tirar, mantendo a mancha sombra na parede. E a moça queria um levantamento do bairro. Queria, sem incomodar, que em "minutinhos o senhor poderia responder umas perguntinhas, bem inhas, inhazinhas ?".
-Só existe a maldição.
Foi isso que respondi e pensei; apenas e exclusivamente a maldição.
E claro, a morte do Clodovil, uma gripe nova e seu anticoncepcional detalhadamente discutido com a ginecologista. E provavelmemte sobre meu saudosismo ao seu analista, da época em que queimávamos colheres, facas, orgãos contrabandeados pela simples função ( simples como um jegue bêbado e bandeirante) da alegria do amor.
- Existe apenas a maldição e os ratos que voltam sempre no verão.
Exaustivamente acordar é voltar. Sem nem ao menos ter tomado providências, assegurando as jactâncias gargalhentas de ser, ao menos, você tinha se tornado assim. Sem que tivêssemos percebido, você havia se separado de mim e casado comigo novamente, mas o ato foi o de casar com um eu que fosse alheio desse meu que ainda estimava, apesar dos anos, da linearidade dos calendários sei-cho-no-ie e das vernissages baforentas.
Acho que fiz as maldições em malas no dia em que me tomei com ciúmes de um eu bem menos eu que a mim mesmo, portanto, duplamente morto. De tal forma que estava aberta toda uma chance de nos divertirmos como antes ( do que ?), por exemplo, pensei, mas não ousei ( por vergonha de você e desse meu Outro que sempre comia de boca fechada e uma respeitabilidade de surfista profissional) em um duplo enterro no quintal, veja bem hoje, veja bem, até sorriso se esboça ao canto: eu assassinaria o Outro, você, passional, me mataria e assim, como não rir e até mesmo rasgar página a página, sentados nos telhados tumulares, as obras completas de Nelson Rodrigues e aquela peça de corno, hum, "Otário" de Shakespeare. Piada infame, claro, mas quando que a gente deixou de rir de um trocadilho, sem precisar perdoar, por estarmos entusiasmados ( esse presente, presença, dos baixos deuses) pela força, pela aliança, pela promessa, tanto mais sólida promessa por nunca ter sido pronunciada ?
Mas que veio esse Outro e até mesmo o corpo dele foi dia a dia se distanciando da aparência do meu. Pequenos detalhes, a curvatura das orelhas, a seguir, a pelificação da sobrancelha. E ele parecia te divertir muito com obviedades, em um tom de voz que também paulatinamente foi se distanciando do meu. A cada nova noite vocês assopravam velhinhas em bolinhos aniversariantes de casamento, beijavam-se delicadamente e com cobertores sobre as coxas contavam sobre a sabedoria feliz adquirida com a passagem do tempo, tomando chá e comendo amantegados.
Do meu canto, enquanto comparavam a literatura de Virginia Woolf com a de Marcel Proust, segundo dengos suporíferos impressionistas, gritava eu:
- Maldição ! Não se esqueça da Maldição, porra !
Gritos de uma coragem não sei donde, quem sabe sazonal de veraneio, mas mal me dirigiam o olhar e logo o Outro comentava:
- Esse aí bem ficaria enquadrado na parede.
- Sim, pois sim, querido. Divertido isso. Como um interfone sem propósitos e mais que isso, chances. E como andam os projetos para o novo aeroporto ?
- De vento em popa ! Os investidores internacionais estão interessadíssimos e o contrato os agrada muitíssimo e ao crescimento do país.
- Me alegra saber !
- Mais que isso ! Que tal um fim de semana no litoral ?! Só nós dois ? E a pílula anticoncepcional ?
- Perfeito ! Tanto a comemorar !
- MALDIÇÃO !!!
- Vai dormir, vai, parede. Baixe a cortina sobre o que estagnou porém ainda sangra.
- Tira o fone do encaixe e não me fale difícil. Teremos a praia logo mais na madruga, u-hú, hang loose.
º
E agora volto.
A casa vazia tem ar de alívio. Mas também estou vazio. A mala, a carrego oca e a roupa do corpo já nem sei pelo cheiro os dias. Sem memória. Possivelmente sem desejo, como disse algum bruxo. Acendo o cigarro, sento e espero.
Você vai me contar em detalhes tudo que vivi.
Nem que seja na mira da arma que lhe aguarda na cintura.
º

sexta-feira, 20 de março de 2009

Piscina Aquecida...


( Tudo que se passa a seguir antecede em 15 anos no que está acontecendo nesse exato momento na história escrita por Grazzi Yatnã em http://grazziencontro.blogspot.com e por mim, aqui. Como já disse, cada trecho pode ser lido separadamente, mas é mais tesão seguir a ordem. Ou a desordem. Entre lá e aqui).
[15 anos antes]
Inverno. Um pequeno bistrô com aquecedor à fogo. Ainda era permitido fumar dentro dos ambientes. Ainda era permitido um monte de coisas, que resumidas eram muito pouco. E tal fato é o que traz esses dois ao bistrô quase vazio, um quadro de Lautrec um pouco melhorado, mas tão anão quanto. Os pratos já esfriavam sobre a mesa, mas o maitrê não se importava muito. Cada garrafa de vinho pedida, ora por ele, ora por ela, era crescentemente mais cara que a anterior, e as cabeças já estavam tocando o teto, sem no entanto incomodar outros clientes: aqueles dois falavam baixo, a maior parte do tempo, se olhando nos olhos. Alguns movimentos eram não exatamente suspeitos, para aquele jovem serviçal treinado em não julgar e chamar o segurança em último caso, não suspeitos, mas apenas estranhos. Porém, lá vinha outra garrafa de vinho, clamada por um indicador levantado. Ele, ela, tanto faz.
- Como foram esses meses sem mim ?
- Muitas vagabundas. Mas nehuma chegava aos teus saltos.
- Agressão, elogio ?
- Sonolência em saber exatamente como cada um desses encontros iria começar, se desenrolar, terminar e "a senhora pode fechar a conta da suíte luxo 220 ?". Tanto dinheiro jogado fora. Elas pediam por cocaína, outras por carinho, algumas por um pau imediato, várias queriam conversar. Mas sem diferença alguma, tudo seguia uma espécie de ritual cansativo. "Me passa o teu celular?", "Só se você prometer ligar....". Com poucas variações.
- A revolução sexual. E os testes da Revista Cláudia. Um dos motivos para decidirmos nos separar foi o resultado de um desses testes que fiz enquanto alguém fazia meu cabelo.
- Está mais bonito assim. Desfeito.
-...era um teste sobre "ele tem a ver com você?". ou " garantia ou perda de tempo?". Eu cheguei, mostrei, você aprendeu que deve reparar nas mudanças de uma mulher, um brinco novo, um anel, a depilação, e portanto elogiou meu cabelo, comparando-o em prós e contras com o corte anterior. Eu joguei a revista no seu colo, na página aberta do teste e tentei ir para o quarto. Você me segurou firme pelo pulso. Você aprendera que uma mulher arisca precisa que alguém a pegue forte e...mais um tinto argentino ?
- Pede. Um melhor. E os caras ?
- O que mais chama atenção neles é no antes, o perfume e no depois, a maneira como chupam. Os adocicados parecem ter nojo. Os da moda fazem a coisa te olhando e piscando, se achando ultra sedutores. Os amadeirados invariavelmente não chupam. E comprei um vibrador.
- Ará ! Como foi isso?
- Entrei na loja, a mulher era uma negrona alta e gorda, bonachona, um sorriso que deixa qualquer um bem a vontade.
- Tipo esse nosso papo?
- Não, melhor. Ela tinha uma finalidade bem estabelecida, me vender algo.
- Entendo.
- Ah, sim ! O teste da Revista Cláudia e essa mania intelectualóide de dizer "entendo" a tudo que digo.
- Veremos logo o que você vai fazer com isso. E agora, a negraça e o vibrador ?
- E um filme pornô. Uma fotografia da contra-capa que chamou a atenção. A atriz estava em um banheiro sujo, e da parede dele tinham vários buracos, coisa de centenas, e de cada um, um caralho
- Boca suja...
- ...uma pica, ela ia se revezando ali. Eu avançava e pausava o filme, marcando com a caneta na tela os paus que ela já tinha acarinhado....impressionante, ela só voltou para o primeiro após terminar o último, e numa ordem crescente de tesão, ao menos para mim, esse controle absoluto, essa regra completamente puta em ser totalmente exata. O vibrador, bom, ele tem o formato de um de verdade, mas tudo é exagerado, as veias muito grossas, a cabeça muito larga...garçom, um chileno rosso, por favor....e era frio. Isso que mais incomodou, o fato de ser frio. Girando uma rodinha, uma espécie de acelerador, você até podia aumentar ou diminuir a velocidade, mas aquela coisa era fria. Foi quando, certa manhã, o joguei dentro da panela onde a água do café estava fervendo. Deixei um pouco e abandonei o café. A tal da revolução sexual, como fiz com você. Um dos maiores orgasmos da minha vida. E assim foi, quanto mais quente melhor.
- Isso é nome de pornochanchada da década de setenta.
- Não. É um filme da Marylin.
- Sem grandes diferenças.
- Eu o aquecia diretamente no fogão. Depois comprei um isqueiro rosa, só para ele. Até uma noite em que tive a infeliz idéia de sair com um amadeirado, fiz ele gozar logo e coloquei o consolo no micro-ondas....
- Imbecil ! Outro chileno, rapaz !
- Pois é, derreteu. Abri a porta do micro-ondas e lá estava o cacete de borracha derretido, sobrando apenas as bolas na base, como uma memória inexata. Cai no chão da cozinha e chorei. Me lembrei de você.
- Saudades ?
- Não, metáfora.
- Entendo.
- Você falou de propósito.
- Entendo.
- Ódio. E ainda faz aquele mesmo barulho pra chupar o macarrão ? Tosco !
- Entendo. Entendo.
- Muito bem, calma menina, calma, você está aqui com ele exatamente para resolver isso, isso, o fato de estar com ele e existir uma vida e nessa vida, uma parte conjunta de ambos e que nó foi atado de maneira satânica, sim , pense, pense.
O garfo sobre a mesa. Em um movimento bruco-rápido ela o toma em unhas roxas e enfia. O garfo sob a mesa, na panturrilha esquerda dele. O maitrê vê apenas panos e o homem morder o lábio inferior. Até aí tudo bem. O inverno. O aquecimento à fogo, "je t'aime moi non plus" no ar.
- E aí, seu merda, continua "entendendo" ? Continua tendo seu programa preferido? Continua sabendo escrever poemas perfeitos, hein ? Entre cinema e teatro ainda fica bem antes da sétima arte, a não ser que tenha levado Cannes ? Ainda Entende, entendido do caralho ? Vai, fala agora, fala você que disse que nosso nó nunca se desfaria e que eu jurei o mesmo e agora está foda, foda, foda ? Me olha na cara e ENTENDA isso ! Não me entenda, não se entenda, não deite no divã, não nos entenda, apenas sinta que vou enfiando essa coisa cada vez mais fundo na sua perna....
- ...
- Fala. Vai desmaiar ? Chilique ? Vai brigar ? Vai citar algum filósofo e depois me dar um soco na boca, canalha ?
- Me passa um cigarro.
- O que ?
- Me passa um cigarro. Pode deixar que eu acendo.
- Não...não....toma, eu acendo pra você.
- Obrigado.
- Você está legal ? Merda, pirei, pirei, merda, calma, vou tirar com tudo, veloz, dói menos e vamos pra um pronto-socorro, a gente inventa uma história doméstica até chegar ao plantão e...
- Duas coisas.
- Fala, diz !
- Enfia mais fundo o garfo. E pegue no meu pau.
-...
- Faça, meu amor, faça.
- Você é doente. Caraca ! Está mais duro que pedra !
- Vai, isso, pra cima, pra baixo, eu vou gozar....não, ainda não.....
- Doente ! Maluco, porra, mas como está duro !
- Você está um passo atrás da solução.....ah.......
- O que ?
Outro movimento veloz, agora da parte dele. Mãos de unhas por fazer, a faca. Entrou até a metade na panturilha direita dela. O maitrê e cada coisa que a gente tem que ver nessa profissão...
- Sentiu ?
- Estou sentindo, cara, estou sentindo....ai......
- Ai.....
- É um caminho perigoso que a gente vai pegar....
- Eu acho que sim, linda, não entendo nada mais, apenas acho que é ...ah....perigoso e o nó ainda mais forte.....
- Enfia a mais a faca....
- E você, o garfo....
- Chega no meu osso.
- E você no meu.
- Senhor, senhora...a cozinha está fechando e eu gostaria de
- A conta. Vai, a conta seu merdinha.
Ele preencheu no cheque tremendo. Ela assinou suando.
E se levantaram.
Abraçados, amparados. O amor ! Possivelmente agora ficarão aconchegados na praça que a prefeitura acaba de iluminar melhor para a segurança dos românticos.
Opa.
Sangue ? Uma piscina de sangue ? E o rastro....Porra !!! Dois doidos ! O segurança, o segurança.....
- Manoel, chama o Cardoso pelo rádio.
Os dois saindo pela porta acortinada, abraçados, mancando, deixando o rastro e se acariciando silenciosamente os cabelos, afagos.
- Nada não. Esquece. Rápido, balde, água, escovão ! Rápido, moleque, vai !
º

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Novas Ondas...


Texto per
tencente
ao conto
embru
lhado
com
Grazzi Yatña,
para me
lhor
enten
dimento e
informa
ções,
seguir
O início está aqui mesmo,
o fim está em algum lugar,
onde a sanidade
não deverá habitar.
Boa
diversão.
Paulo Castro.
º
Claro que ela não morreu com a pancada que lhe dei. Ela não é dada a esse tipo de coisas, como morrer ou manter a mesma escova dentária por mais de uma semana. Apenas o pai viera tomar satisfações comigo e não preciso me alongar, ele tinha muito de "old school" na maneira de ser violento, estava ultrapassado e eu um novo e aplicado aluno da nova violência. Eu tinha lhe dito que a porta estaria aberta e mesmo assim ele precicou chuta-la e apontar a pistola com mira escura para todos cantos da sala. Desnecessário e imbecil. Ela herdou isso dele, mas melhorou as coisas: sabia ser desnecessária e imbecil como forma de seduzir.
Pulei de trás do sofá com a idéia que nasceu mesmo ali, na porta chutada com a bota militar, em questão de segundos. Ou a metade de um segundo. Ou um riso caçado estupidamente pela mira laser: acertei sua cara com ambas as mãos. Mas dessa vez, do salto, o fiz até que o peito parasse de subir e descer. Até eu ter a certeza. Até o amor que lhe faltava não segurar minha saliva que voava para todos os cantos.
º
Arrumei o necrotério-enfermaria na cozinha. Sempre que me preparava um sopão de salsichas averiguava a evolução do plano: ambos tinham quase a mesma altura quando eu coloquei as botas nela e o deixei descalço. Claro que um dia o rosto dela fora mais refinado do que os roxos e inchaços de agora, a boca mais gostosa do que essa mandíbula em torcicolo que o tubo do respirador ( vendem essas coisas com uma espantosa facilidade, bem como atlas de anatomia, kits cirúrgicos, e literatura e poesia. Não percebem como tudo isso é extremamente suspeito ), um dia o rosto dela me convenceu com um sopro de cigarro na cara e tosse a viver um tipo diferente de relacionamento. Agora injeto silicone no seu queixo, para o formato exato.
Relacionamento é vida. Bom título para um auto-ajuda comprado na rodoviária.
Tenho certeza que ao acordar, ela irá me amar ainda mais pelas atitudes do agora.
º
Acertei mais um soco no nariz dela. Com a tesoura, o bisturi e as linhas, fiz o desvio de septo no ângulo exato do corpo na maca ao lado. Muito bem, teria agora uma pessoa que ronca e não ronrona ao dormir. Cartilagens do ofício ou ossos da paixão. Quase sorri disso.
º
Instalei inicialmente o expansor de orelha de 2cm em seu clítoris. O tatuador disse que eu poderia aumentar para 4 cm em duas semanas. E assim por diante. Ele achava que eu falava da orelha e de alguém acordado. Fui exponenciando o diâmetro a cada três dias.
º
Mesmo alguém com corte chanel tem muito cabelo. Depois de fazer o corte militar, peguei o ônibus e lancei tudo na nascente do infecto rio. Li coisas sobre crimes, dentes e fios de cabelo.
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O pai começou a feder com o passar dos dias. O sopão ficava indigesto.
"O amor supera tudo". Outro bom título de ler esperando o avião.
Passei a treinar a penetração anal no cadáver. Beijava sua nuca e dizia que o amava profundamente. Interessante, comprei um livro de receitas, uma passagem no supermercado luxo 24 horas, e meu apetite ficou cada dia mais refinado. Começo a entender as bichas e seus scargots.
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Ele tinha algo de oriental nos olhos. Gatuno.
Com dois pequenos cortes ela ganhou também essa feição. Ficou lá sangrando uns três dias, mas se eu desse os pontos, como afirmava o "Compêndio de Cirurgia Plástica Contemporânea & Body Modification", eu perderia o efeito desejado.
º
Alargador de orelha número 18. O tatuador disse que depois gostaria de ver o trabalho, fotografar, que iria para seu álbum de clientes mais ousados. Tirei a arma, apontei a mira laser para sua testa e disse que ele apenas me fornecia o material, mas que todo trabalho estava sendo meu. Hell Angel de merda. Vai ouvir heavy metal e me deixe trabalhar em paz.
º
A rigidez cadavérica deixava o sexo anal com o pai ainda mais excitante e refrescante. Alguém pode me culpar? Com um verão desses !
º
A sonda nasogástrica a alimentava essencialmente de proteínas. Passava as noites na beira do leito, exercitando seus braços, levantando as pernas, orando, fazendo-a ouvir música eletrônica nos fones dia-e-noite.
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O objetivo tinha sido alcançado. Eu preciava fazer algo para que acordasse. Já respirava sem a ajuda de tubos, e diminui radicalmente as doses de heroína que atolava em suas veias. Teve algumas convulsões por dependência, mas nada de acordar. A bela adormecida. Acho que um dia eu tive uma mãe, até mesmo um pai mais sensível, e ele me lia isso( eu sou a Bela Acordada, Flaubert e Morfeu) e Rei Leão antes de dormir. Mudei. Passei a comer o cu dela. Morder-lhe as orelhas. "Te amo, te amo, ai, ai, te amo, Nossa !"
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Comprei a picanheira por uma pechincha.
- Picanha saiu de moda, cara - me disse o rapazote de boné mano brown virado ao contrário.
- O que as pessoas andam comendo agora ?
- Com a crise, acho que nem pão véio...ahahahahahaha.
- Sei. Pão velho.
º
Até virar pó, de maneira e cor homogêneas, um corpo humano deve ser assado no bafo, por três dias. "Não tenha pressa, tenha eficácia". Como ainda não pensaram em um título como esse, a melhoria editorial do velho ditado? Adeus, papai. Nos vemos em breve, um pouco mudados, eu sei. Carvão ativado.
º
Ela acordou depois de dois meses e cinco dias. Não entendo de numerologia. Anotar isso e pregar com imã de geladeira.
- Porra...ai....sou dor.
- Oi, minha graça. Saudades. Te amo.
- Minha voz está diferen....DIFERENTE !!!!
- Calma, calma...psiu...foram os hormônios de cavalo. Você vai entender tudo. E vai gostar.
- Dói.....eu dói.....
- Nascer é assim. Morrer não sei.
- Eu lembro. Você me olhou e.....Filho da putzzz.....ai.
- Anotei aqui a série de perguntas que obviamente você faria. E não estamos no cinema. As respostas são as mais didáticas que consegui. Fiz em versinhos e hai-kais.
E expliquei tudo.
A reação foi melhor do que a imaginara.
Ela gargalhava a cada detalhe. Dava socos na mesa, potentes pancadas. Rachando e sendo.
- Preciso treinar a falsificação da assinatura dele, acho que em pouco tempo consigo igual.
- Sim. E se acostumar em ter agora um pinto entre as pernas. Eu quis um bem largo e grande.
E joguei charme, fingindo vergonha:
- Estou louco para que você me coma... e me chame de "filho amado".
- Cara....isso aqui fica duro mesmo ! E molhado. Eu te enrabaria agora.
- Deixe isso pra comemoração.
- Sim.....me passe aqui os vidros com o pó do velho.
- Claro, todo seu.
- Nosso, amor. Nosso. E o espelho. Rá. Eu estou horrível ! Adorei.
- Horrível não. Apenas parecida. Sem querer me gabar, idêntica. Ou idêntico.
- Pão ?
- Sim. Pensei em usar esse pó todo para fazermos pão. E meio que ajudar os esfomeados dos morros. Distribuir para alguma causa humanista. ONGs.
- Eu vou poder comer um ?
- Um para nós dois. Com vinho tinto. Aos céus.
- E depois a comemoração ? Em que vou te foder, querido ?
- Isso mesmo, amado papai. Nunca te amei tanto antes de te conhecer.
- E depois dizem que um casal acaba não dando certo com o tempo.
- As pessoas não lêem, é uma pena. Tem um ótímo, "Casais Inteligentes Enriquecem Juntos".
- Me parece perfeito.
- E é. Amada. Amado.
- Me beija, vem....
- Hum. Benditas injeções. A barba penica delícia....
º